
“Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e alpacas nos pés; (Lucas 15:22)”
Esse versículo tirado do Evangelho de Lucas faz parte da parábola do “filho prodigo”. Nessa parábola vemos a história de um rapaz, que era o filho mais novo de um pai, e que pede sua parte da herança e se vai da casa do pai para gastar este direito que requereu, e lhe foi dado.
Mas ao lermos essa passagem geralmente entendemos que houve uma partilha de bens, algo como se o pai desse a esse filho, uma soma em dinheiro que lhe seria de direito quando o pai falecesse. Mas se olharmos por um ângulo diferente, entendemos que na verdade o que esse rapaz requeria não eram bens materiais em si, mas uma liberdade, ou o direito de ser um jovem irresponsável e descomprometido com a casa de seu pai.
Esse jovem queria mais liberdade para satisfazer suas próprias vontades e desejos, achando que na casa do pai isso não lhe era possível. Talvez porque havia regras que não lhe convinham, ou talvez achasse que não tinha ali um ambiente que lhe sufocasse as suas necessidades, oprimisse a vontade própria, ou até mesmo talvez, que ali não lhe houvesse desafios a superar.
O pai em sua sabedoria deixa seu filho mais novo, um moço que anseia por experiências, deixar o conforte e a segurança de sua casa, não porque não o amasse, ou porque não se importasse pelo o que lhe pudesse acontecer, mas sim porque respeitava a decisão de seu filho.
No entanto vemos um detalhe que muitos não percebem, mas que fica claro quando o pai diz por duas vezes que seu filho havia morrido. Isso nos mostra que o pai sentia que aquele garoto que saiu havia morrido em seu coração, tanto que em momento nenhum vemos que ele fora atrás desse filho, ou mesmo que tentasse dissuadi-lo a desistir de sua decisão. Não significando que era o pai alguém cruel ou insensível, mas alguém que estava disposto a perder algo valioso para si, se isso significasse que geraria a felicidade ou o crescimento do alvo de seu amor.
E isso nos leva ao primeiro ponto chave dessa parábola; “Mesmo sendo penoso para nós, por vezes devemos deixar ir àqueles que amamos”.
Mas voltemos para o jovem que deixara sua casa e fora se aventurar no mundo.
Nesta primeira fase da recém adquirida “liberdade”, o livre arbítrio recém-despertado, manifesta-se primeiro em forma negativa, e durante muito tempo continua a viver exclusivamente nessa dimensão de independência, esbanjando todas as suas potências em uma vida dissoluta, como é invariavelmente a vida de alguém que não têm a quem se subordinar. Mas esse comportamento invariavelmente gera conseqüências inesperadas e/ou desagradáveis. Assim sendo, como toda a culpa livremente cometida gera sofrimentos, necessariamente subseqüentes, no ponto culminante das maldades aparecem os males. O jovem começa a sofrer as inevitáveis conseqüências das suas culpas.
Mas o sofrimento não o levou logo de início à redenção. O jovem sofredor procura libertar-se dos males sem se redimir da maldade: “associa-se a um pecador inveterado na maldade e dele espera libertação dos seus males” (verso 15). O jovem sofredor, no auge da sua miséria, apela para um rico fazendeiro, morador naquela zona; pede-lhe serviço para poder sobreviver. Sem tardar, o velho pecador se prontifica a ajudar o jovem pecador, mandando guardar uma manada de porcos que ele tem na sua fazenda.
Mas, no entanto, vemos algo que nos mostra mais uma chave para entendimento; aquele homem lhe dá serviço, que é algo de sua necessidade, mas não lhe dá nada para comer, ou seja, o que lhe tornaria possível manter-se forte para exercer essa função. Em outras palavras, não supriu seu verdadeiro problema, apenas lhe deu uma solução enganosa. Afinal sem alimento nossas forças vão se exaurindo e as tarefas ficam cada vez mais penosas, pois vamos sendo consumindos por dentro, gradual e silenciosamente.
E é nesse momento, quando se chega ao fundo do poço, é que olhamos para o alto, afinal de contas não há como descer mais para baixo. É neste ponto que nos perguntamos; “Quem realmente sou eu?” Sou um tratador de porcos? Não! Eu estou nesta profissão, mas não é essa a minha vocação. Eu sou filho legítimo de alguém bom, de alguém que trata até seus mais humildes servos com melhor apreço do que o que tenho aqui neste lugar.
E nesse momento é que há um crescimento espiritual, pois nesse momento ele decide reconhecer seu erro, decide enterrar seu pesado orgulho no fundo daquele poço e ir humilhar-se ao seu benevolente pai. Reconhece que sua decisão foi precipitada e que se arrependeu de tê-la tomado.
Mas ao chegar novamente de onde havia saído não se fecha um círculo, mas se abre uma espiral, pois esse filho agora, não mais desmerece aquilo que têm, não é mais tão imaturo a ponto de pensar que seu pai o inibe ou coíbe. Agora entende que ao levar uma vida sem subordinação é impossível, pois se não esta sob a casa do pai, se está por conta própria, portanto, sujeito a ser tratado pior do que os porcos de um tirano que aproveitará da sua situação.
Hoje temos de entender que podemos fazer tal qual o jovem da historia contada por Jesus, e por fim sermos inteligentes para reconhecer nossos erros e aprender a voltar a trás. Mas podemos ser sábios e aprendermos com os erros dos outros, sem precisarmos sofrer as perdas impostas pela busca insensata da nossa identidade. Afinal se soubermos que somos filhos legítimos do Deus Vivo não precisaremos passar fome, espiritualmente falando, mas desfrutarmos de sua farta mesa, e de sua proteção.
Mesmo que saindo de casa, somos filhos, mas se voltarmos não devemos mais tirar a aliança que novamente foi colocada em nosso dedo, simbolizando o amor de Deus para conosco e o amor com que devemos tratá-Lo.